sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Cartas ao mundo


Prezada Amanda,
 Demoro a acreditar que há muito tempo não nos falamos. E mais estranho ainda é pensar que estou falando com você através de uma carta. E por onde vou começar? Tenho muito a dizer, mas não sinto quase nada nesses últimos tempos. Ou sinto? Talvez até eu sinta algo. Só não sei explicar.
Como sempre coloco muitas questões e poucas respostas. Não mudei muito, não é? O problema que desde que você foi embora para essas terras distantes não tenho com quem conversar sobre sentimentos. É tão difícil falar sobre eles sem parecer vazio, oco, besta ou até idiota. Será que você conseguiu encontrar alguém para conversar sobre eles? E sobre as constelações aposto que alguém já apareceu para discutir sempre aquelas questões de sempre. Afinal, Deus existe? Espero sinceramente que não tenha chegado a essa resposta, pois há possibilidade de duas respostas e as duas sempre me levam a me afastar das pessoas. Brincadeira. Sempre estarei por aqui! Sou a única pomba que ao pombal voltou.
Voltando ao sentimento, talvez eu tenha descoberto o que sinta. Sinto sua falta e todos os dias. Não tenho muito do que me orgulhar Amanda, muitas lutas e pouca compreensão. O caminho que escolhi é muito solitário e pensando bem, já estou em outros caminhos. Meus planos eram outros e se os tivesse seguido poderia me sentir feliz agora, mesmo que tivesse topado com portas na minha cara. Sei que os seguirei um dia, porém me pergunto se suportarei até lá. Parece que um mar de ignorância banha essa nossa cidade e tenho que suportar a lama que me jogam no rosto dia após dia, revido às vezes, mas revidar sozinho sempre é mais difícil, não é? Parece covardia, eu sei, contudo não tenho forças para suportar inimigos tão baixos, capazes dos métodos mais “horrendos” para obter seus objetivos e ainda vê-los como heróis por parte dos que me cercam. Além do mais, cadê os comunistas seus amigos que aqui iriam aportar? Quem sabe eles não sejam uma resposta a altura para essa gente que tanto nos atormenta.
Confesso que desde nossa ultima conversa conheci alguém para amar.  Ainda não existe nada, mal consigo me aproximar. Tenho certeza que você gostaria dela se a conhecesse. É uma pessoa muito especial. Diferente de tudo que encontrei, mas tão difícil de decifrar que às vezes penso que ela é uma esfinge, logo serei devorado se não tomar uma atitude. Como bom libriano tenho sérias dúvidas sobre tudo. Se tudo der certo enviarei uma carta falando da minha vitória, agora caso der errado, também enviarei uma carta para falar das minhas magoas. Não poderia ser diferente, não é?
Soube de suas atividades como militante estudantil. Fiquei muito feliz. Afinal, qualquer movimento precisa de pessoas sensíveis para não enrijecer muito. Sobre aquela questão que o seu colega nos colocou me parece um posicionamento de um velho “murista” de sempre, puxa saco de professor e serviçal de qualquer boçal com algum título acima dele. Me prestarei a responder um dia desses, mas ando cansado desse tipo de gente, por aqui há de balaio. Você sabe disso!
Bueno, encerro por aqui. Aguardo um retorno por esse meio arcaico de comunicação (ou por e-mail), porém muito mais divertido que aquelas redes sociais. Eu disse que enviaria uma carta para você. Ganhei nossa aposta.
Abraço,
Ézio.


P.S.: Quando sairá o noivado? Faz tempo que não vou em um casamento!

 Autorizada a publicação.